AS MULHERES NO FUTEBOL, UMA REALIDADE


Apesar de ainda sofrer um pouco de preconceito atualmente, esse tipo de aversão era muito comum há algumas décadas atrás. No ano de 1964, o CND (Conselho Nacional de Desportos) chegou a proibir a prática do futebol feminino no Brasil. Para essa situação mudar levou algum tempo, já que apenas em 1981 essa decisão foi revogada. Finalmente, em 1996, a prática foi incluída como categoria nas Olimpíadas de Atlanta, sendo que o nosso país ficou com a quarta posição.

O preconceito era tão grande que o cidadão José Fuzeira, no dia 25 de abril de 1940, escreveu uma carta para o presidente da época, Getúlio Vargas, pedindo para que as mulheres não tivessem o direito de praticar o futebol feminino. Confira o pedido:

“[Venho] Solicitar a clarividente atenção de V. Ex. para que seja conjurada uma calamidade que está prestes a desabar em cima da juventude feminina do Brasil. Refiro-me, Sr. Presidente, ao movimento entusiasta que está empolgando centenas de moças, atraindo-as para se transformarem em jogadoras de futebol sem se levar em conta que a mulher não poderá praticar esse esporte violento, sem afetar, seriamente, o equilíbrio fisiológico das suas funções orgânicas, devido à natureza que dispõe a ser mãe... Ao que dizem os jornais, no Rio, já estão formados, nada menos de dez quadros femininos. Em S. Paulo e Belo Horizonte também já está constituindo-se outros. E, neste crescendo, dentro de um ano, é provável que, em todo o Brasil, estejam organizados uns 200 clubes femininos de futebol, ou seja: 200 núcleos destroçadores da saúde de 2.200 futuras mães que, além do mais, ficarão presas de uma mentalidade depressiva e propensa aos exibicionismos rudes e extravagantes”. (José Fuzeira, carta datada de 25/04/1940 In - SUGIMOTO, Luiz. Eva futebol clube, 2003)

A carta escrita por José Fuzeira mostra a preocupação de um cidadão com o crescimento do futebol feminino na época. Poucas décadas depois, no início dos anos 80, 200 equipes já aguardavam a liberação e a oficialização do esporte no Brasil, pelo Conselho Nacional de Desportos.

Um dos pioneiros times de futebol feminino no Brasil foi o Guarani. Em 08 de janeiro de 1983, o CND liberou formalmente a prática para as mulheres. Antes disso, o ‘Bugre’ já organizava campeonatos internos de futsal feminino para as associadas do clube e depois formaria uma equipe competitiva também para o campo. O Guarani participou das primeiras competições organizadas no interior do Estado de São Paulo, conquistando o primeiro Campeonato Campineiro de Futebol Feminino da história, em 1983. Mesmo com vários títulos após essa conquista, o time feminino acabou sendo extinto, restando apenas os torneios internos de futsal para associadas. Hoje em dia, o elenco do ‘Bugre’ conta com cerca de 40 jogadoras e é um dos mais fortes do Brasil. Atleta de apenas 16 anos, a atacante do Santos, Ketlen, acredita que a tendência do futebol feminino é crescer cada vez mais com o passar dos anos. “Ainda existe preconceito sim, mas acredito que o esporte está crescendo muito nos últimos anos e a expectativa é que continue assim. Ano passado, com o Pan-americano, o futebol feminino ganhou ainda mais destaque e espero que se torne mais popular ainda”. Mesmo com pouca idade, a atacante santista já balançou as redes seis vezes nesse Campeonato Paulista Feminino e já foi convocada diversas vezes para a Seleção Brasileira.

Experiente quando o assunto é futebol feminino, o técnico do São Bernardo, Maurício Salgado, vê com otimismo a popularização do esporte. “Estamos vendo a massificação do futebol nas escolas e isso é muito bom. Acho que a postura profissional tem mudado bastante com o passar dos anos, pois temos um trabalho mais sério agora. A própria mídia está mais interessada e isso contribui muito para crescer ainda mais a nossa modalidade”.

Para Salgado, o futebol feminino tem apresentado importantes diferenças nos últimos dez anos. “O número de meninas que praticam o esporte hoje é muito maior do que foi no passado. No Campeonato Paulista, por exemplo, uma equipe ou outra se sobressai, pois a competição é muito equilibrada. Antes, sempre os mesmos times brigavam pelo título e já disparavam na ponta logo no começo do torneio”.

Coordenador técnico do São José, uma das equipes mais bem estruturadas no cenário feminino, Márcio Antônio Oliveira cita a iniciativa que a Federação Paulista de Futebol teve na década de 90, quando Eduardo José Farah ainda era o presidente. “Ele criou a Paulistana e isso foi o pontapé inicial para a popularização do futebol feminino. Hoje, nós temos que parabenizar a FPF e a Secretaria de Esportes de São Paulo por sempre apoiarem esse esporte. O Lars Grael, quando foi secretário da Juventude, Esporte e Lazer do Estado também sempre se mostraram disposto a ajudar e foi muito importante para o futebol feminino estar onde está hoje”.

Oliveira ainda acredita que a Seleção Brasileira também tem papel fundamental no crescimento do esporte. “Em 2004, acho que o futebol feminino deu uma grande alavancada com as jogadoras que foram jogar no exterior. No Pan-Americano do ano passado também, a Seleção fez uma grande campanha e com certeza isso motivou algumas meninas a procurarem escolinhas pelo Brasil”.

Apesar de elogiar bastante o crescimento, o coordenador do São José ainda cita diversos problemas que o futebol feminino encontra no nosso país. “Eu vou citar como exemplo a Sorocabana. O José Antônio (técnico) é um verdadeiro guerreiro, pois as jogadoras não recebem um centavo para jogar e ele leva esse time nas costas. As meninas não têm tempo nem mesmo para treinar, já que trabalham. São pessoas assim que fazem com que o nosso futebol cresça cada vez mais”.

Assim como alguns treinadores, coordenadores e jogadoras citaram o Campeonato Paulista Feminino deste ano realmente mostra grande equilíbrio. Faltando apenas seis jogos para cada equipe encerrar sua participação na primeira fase, apenas três clubes, de um total de 18, têm remotas chances de classificação. Todas as outras 15 seguem na luta pela vaga na segunda fase, comprovando o equilíbrio da competição e o bom nível das jogadoras.
Hoje ainda falta muito para o futebol feminino, não sabemos se por racismo ou por falta de credibilidade. Apesar de já ter mostrado toda sua força e qualidade no esporte as mulheres ainda não tem um profissionalismo dentro do esporte. 

Clubes que muitas vezes não pagam nem salários, mais isso não tira o estimulo dessas guerreiras que continuam lutando por seu espaço e sua vontade de entrar num esporte tão machista, esperamos que muito breve o futebol feminino seja profissionalizado, só assim lutaremos de igual para igual com as melhores equipes do mundo. Vale ressaltar que mesmo com clubes e empresas colocando de lado o futebol feminino temos uma das melhores jogadoras do mundo e estamos sempre na disputa por títulos e medalhas nas competições.

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