Coritiba flexibiliza concentrações e nova liberdade surpreende jogadores

Acordar ao lado da esposa ou da namorada, tomar o café da manhã com a família e depois ir para o estádio para jogar uma partida válida pelo Campeonato Paranaense. Desde o início da temporada, os atletas do Coritiba têm vivido essa realidade ao contrário da clausura das concentrações, que são regra comum na maior parte dos times brasileiros. 

Chico zagueiro Coritiba Couto Pereira (Foto: Gabriel Hamilko) O Coritiba inovou na temporada e deu um voto de confiança aos jogadores ao implantar uma concentração mais flexível. Em boa parte das partidas disputadas em casa, o elenco está dispensado da obrigação de dormir no hotel durante a véspera da partida. A nova regra diz que o atleta pode dormir em casa e se encontrar antes do almoço, no dia do próprio jogo.

A situação foi estudada pelo técnico Marquinhos Santos e pelo superintendente de futebol Felipe Ximenes. Na visão deles, o grupo tem maturidade suficiente para se cuidar e responsabilidade na preparação anterior aos jogos.

Em uma cultura do futebol brasileiro em que a concentração é um modo de manter o jogador na linha, a decisão foi recebida com espanto e alegria pelos jogadores. Boa parte do elenco é composto por atletas que já formaram família e convivem com esposas e filhos. O tempo para se dedicar mais aos entes queridos se tornou uma motivação. Porém, os mais jovens também receberam a abertura como um voto de confiança, vigiada de perto pelos preparadores físicos e nutricionistas.

Para a maioria dos atletas, é a primeira vez que eles encaram uma decisão tão liberal por parte da diretoria de um clube. O exemplo é o jogo contra o JMalucelli, nesta quarta-feira. Na terça, após o último treino coletivo, o elenco foi liberado e só se encontraram no horário do almoço. O próprio volante Willian até brincou antes da coletiva de imprensa, apressando os jornalistas pois tinha que almoçar com a mãe.
- Vamos, quando tem concentração vocês não se enrolam tanto. Eu quero ir rápido hoje para almoçar com a minha mãe, aproveitar que não tem concentração - brincou o descontraído volante.
No caso dos atletas que já tem família, o zagueiro Chico é o exemplo clássico que aproveita a oportunidade para usar como motivação. Ele disse que estranhou no começo, mas a melhor parte é receber um beijo de despedida da filha de dois anos antes de cada partida em casa.

Coriitba se aquece no vestiário do Estádio SESI, em Manaus. Rafinha e Gil (Foto: Raphael Brauhardt / Divulgação Coritiba) - No começo foi estranho, pois não estava acostumado a ficar em casa com a minha esposa e minha filha. Depois se acostuma e fica bom. Dá mais atenção para a família. É uma confiança que precisamos fazer por merecer e retribuir em campo. Acordar no domingo e ver minha filha antes do jogo, dar um beijo nela. É bom, uma motivação a mais para o jogo.

O volante Gil foi um dos que mais gostou do gradual abandono da concentração na véspera dos jogos. Além de ficar mais com a família, ele exaltou a maior possibilidade de fazer outras atividades, ao invés de ficar só deitado na cama.

- Falando por mim, acho muito bom. Vai de cada jogador e profissional. Hoje em dia, o futebol não deixa mais espaço para erros. Tanto dentro como fora de campo, a gente tem sempre que ser profissional no que faz. Acho que bom, pois fico em casa e curto mais a minha família, a minha esposa e a minha família.

A convivência em dois anos de concentração no Coritiba deu a oportunidade dele fazer uma grande amizade com o meia Rafinha, mas nada que troque os novos momentos de lazer com a filha, que ainda é bebê.

No hotel, a gente fica o dia inteiro deitado na cama. Em casa eu brinco mais com a minha filhinha"
Gil, volante do Coritiba
 
- É diferente, pois no hotel a gente fica o dia inteiro deitado na cama e só sai para as refeições. Em casa eu já brinco mais com a minha filhinha e converso mais com a minha esposa, já que na concentração a gente conversa mais com o companheiro de quarto. Mas não estranhei não, achei muito bom.

Para manter a concentração, ele contou que a esposa contribui bastante, deixando ele tranquilo em casa. Sozinho, Gil vai até um quarto que tem só para ele e passa o tempo com jogos de vídeo-game e pensamentos sobre o próximo jogo.

- Procuro descansar o máximo possível e sempre com o foco no jogo. A minha esposa é bem tranquila e procura me deixar bem tranquilo. Tem um quartinho em casa que eu procuro ficar mais trancado, focado no jogo, brincando e distraindo a cabeça com o video-game que eu tenho.

No caso do recém-casado Leandro Almeida, até mesmo quando ele jogou na Europa, teve que encarar concentrações. Ele argumentou que é uma falsa impressão achar que no Velho Continente não existe a reunião na véspera de partida.

O zagueiro atuou três anos na Ucrânia, no Dínamo de Kiev. Além da concentração habitual, o clube ucraniano prepara vídeos especiais que passam em um canal separado para os jogadores. Quando alguém quer estudar o adversário, basta acessar e assistir .
Leandro Almeida Dínamo de Kiev Coritiba (Foto: Reprodução / Instagram) 
- A gente se concentrava um dia antes da partida. Dois dias antes quando era um jogo importante, quando era jogo da Champions League. O clube instalava uma programação para sempre passar nos quartos alguma tática do adversário. Na hora que o jogador queria acompanhar alguma coisa do adversário, era só colocar no canal para assistir.

Para Leandro Almeida, acostumado com a rotina, a preferência não é tão grande por uma opção. Ele se diz contente em ficar em casa ou se concentrar no hotel, pois vê lado bom nas duas situações.

- Cada jogador tem a sua responsabilidade e sabe o que vai fazer um dia antes.Eu gosto das duas partes. Tanto ficar em casa concentrado ou quando ficamos no hotel. Com a família é bom, pois eles nunca te atrapalham, mas no hotel vale também, pois já fica com o foco total no jogo.

Após seis anos de carreira profissional, Leandro Almeida confessou que estranhou um sábado em casa. Até a própria esposa perguntou se ele não tinha se esquecido da concentração.

- É diferente. Até a minha esposa estranhou e me perguntou se eu não ia me concentrar. Fiquei descansando e tranquilo. Dormi cedo, no horário que a gente sempre costuma dormir quando está no hotel. Acho que isso ajudou e até fiz uma boa partida. Tem tudo para dar certo e quem sabe no Brasil todo mundo pode adotar - disse.

Fonte: Globo Esporte

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