Um mês após a tragédia que matou o garoto Kevin Beltrán em Oruro, os 12
corintianos presos na Penitenciária de San Pedro passaram por momentos
de tensão. Desde o início da semana, a direção do presídio tenta
transferir os brasileiros para celas comuns. A medida significa dividir
os corintianos em grupos menores e colocá-los juntos a detentos
bolivianos. Nesta quarta-feira, a situação atingiu seu limite: os 12
chegaram a formar uma fila para encaminhamento até as novas seções.
Entraram em pânico. No entanto, representantes da Embaixada do Brasil
conseguiram manter os presos em celas separadas dos demais. Para os
corintianos, isso significa a garantia da integridade física.
O ministro
conselheiro da Embaixada, Eduardo Saboia, apresentou um discurso de
confiança. Hoje, os brasileiros ficam em duas celas, com seis pessoas em
cada, em local separado e sem contato visual com os detentos
bolivianos. Saboia ouviu da diretoria da Penitenciária de San Pedro que a
atual condição será mantida.
- Eles nos deram a garantia de que os brasileiros terão a integridade
respeitada. E isso só vai acontecer se eles continuarem da forma que
estão, juntos - disse o representante da Embaixada.
Internamente, porém, o Itamaraty ainda trabalha com a desconfiança, já
que tem experiência ao lidar com presos brasileiros na Bolívia –
atualmente, de cem a 120 detentos no país. Em conversas de membros da
embaixada, um vice-cônsul que acompanha o caso disse que a transferência
foi apenas “suspensa”, com a possibilidade de o problema reaparecer no
futuro. Saboia, porém, diz que a decisão é consumada.
Presos desde o dia 20 de fevereiro, os corintianos seriam divididos em
quatro "seções" do presídio San Pedro e misturados a presos bolivianos.
Esta revelação foi feita por um dos corintianos presos, Danilo Silva de
Oliveira, que atendeu à reportagem, por telefone, de dentro da prisão.
Ele afirma que o diretor do presídio comunicou que eles seriam retirados
do "seguro", onde estão desde que foram transferidos para a
penitenciária, no dia 22 de fevereiro, e colocados em quatro alas
diferentes, cada uma delas com até 200 bolivianos.
O torcedor apelou para que a embaixada brasileira na Bolívia entrasse
em ação para evitar a transferência. A princípio, a estratégia deu
certo.
- Juntos, conseguimos cuidar da nossa segurança. Mas vamos ser
separados nessas quatro seções. Cada uma tem entre 150 e 200 bolivianos.
Para dormir, vamos ter de pagar uns 200 (pesos) bolivianos por cabeça
para ter um espaço. Vamos ingressar e ficar com esse débito. E sabe como
se paga débito em cadeia, né? É lavar a roupa dos outros, tirar o lixo,
vira esqueminha. Vamos perder tudo, dinheiro, roupa, documento. Mas
perder os pertences é coisa mínima. Nem estou querendo mencionar nossa
integridade física, agressões, ser molestado. Pode acontecer tudo isso -
afirmou Danilo.
O corintiano conta ainda outro temor dos brasileiros presos: o
calabouço, uma espécie de solitária para onde são levados os presos com
problemas de comportamento.
- Está todo mundo nervoso, porque aqui é assim: se rola uma briga, se
alguém discute, é levado para o calabouço, que é um porão. Todo mundo
faz as necessidades no mesmo lugar, não tem alimentação direito, p...
nenhuma. E o castigo tem, no mínimo, dez dias. Se descermos (forem
transferidos), alguém vai mexer com a gente, roubar nossas coisas, vamos
brigar com alguém e aí é calabouço. É complicado.
O torcedor explica que parte do grupo já passou por um calabouço na
prisão de San Pedro, mas um que fica num pavimento superior. Isso
aconteceu porque, durante uma revista, policiais acharam os celulares do
grupo – o uso de qualquer aparelho móvel é proibido dentro da
penitenciária.
- Quando entramos, estávamos com nossas mochilas e falamos do celular
nextel, que não funciona aqui. O ministro, que estava com a gente, disse
que poderíamos ingressar, que não tinha problema. Passou uma semana, e
os policiais entraram na nossa cela procurando celular. Nós
apresentamos. Ficamos no calabouço por quatro dias. Não no calabouço de
baixo, mas no de cima. Chegamos a ir no de baixo, mas batemos o pé,
choramos, falamos que iríamos morrer ali. Aí, Deus tocou no coração do
sargento, que nos levou para a cela de cima – relatou Danilo, aliviado.
A tendência é que os corintianos presos fiquem em San Pedro até o fim
das investigações, pelo menos. O prazo para a apuração dos fatos é de
seis meses. A primeira apelação pela liberdade provisória dos torcedores
foi negada pela Corte Superior de Justiça de Oruro. Agora, a defesa
prepara o pedido de reconsideração das acusações – a diferença desta
para a apelação é que novos depoimentos, provas e documentos podem ser
anexados ao processo.
*Reportagem de Stéfano Mariotto de Moura e Hudson Nogueira, em Oruro, e Diego Ribeiro, em São Paulo
Fonte: Globo Esporte
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